Cosmos da Filosofia
Vista de uma janela aberta num apartamento antigo de Lisboa ao entardecer, sobre telhados e chaminés, com um céu rosado ao fundo e luzes distantes de rua.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) · 1928 (publicado em 1933)

Tabacaria

Um monólogo à janela, diante de uma tabacaria, sobre a sensação de não ser nada.

NiilismoExistênciaConsciência

Sobre a obra

'Tabacaria' foi escrito por Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, em 15 de janeiro de 1928, e publicado só em julho de 1933, na revista Presença. É considerado o poema mais importante da fase final de Campos, marcada pelo cansaço e pela desilusão, depois das fases anteriores de exaltação futurista.

Álvaro de Campos foi concebido por Pessoa como um engenheiro naval formado em Glasgow, com três fases poéticas: decadentista, futurista-sensacionista e, por fim, intimista. Em 'Tabacaria', essa última fase aparece em um longo monólogo sobre fracasso, identidade e cansaço existencial, sem enredo, dito por alguém que observa a rua de uma janela.

O crítico Antonio Tabucchi chegou a chamá-lo de poema mais importante do século XX, e o estudioso Eduardo Lourenço resumiu dizendo que todo o heterônimo Álvaro de Campos está concentrado nele. Desde 1996, a Casa Fernando Pessoa publica uma revista semestral chamada Tabacaria, em homenagem ao poema.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores.

Niilismo sem teoria

Um dos temas mais insistentes do poema é o vazio de identidade: o sujeito sente que não ocupa lugar nenhum entre o que é e o que gostaria de ser. Essa sensação se aproxima do niilismo descrito por Nietzsche como a percepção de que os valores mais altos perdem o peso e não sobra um sentido pronto para a existência. No poema, isso não vira tese abstrata, mas sensação quase física de esvaziamento diante da própria vida.