Cosmos da Filosofia
Descartes escrevendo com pena à luz de vela em um escritório com estantes

séc. XVII

Filosofia Moderna

Descartes e a dúvida metódica: o sujeito pensante passa a ser o ponto de partida do conhecimento.

Um século de ciência nova e de guerras

O século XVII é o século em que a imagem aristotélica do mundo desmorona. A física de Galileu mostra que a natureza pode ser descrita em linguagem matemática; o universo passa a ser pensado como matéria em movimento, regida por leis, e não como um cosmos de formas e qualidades. Nas escolas, porém, continua-se a ensinar o aristotelismo escolástico, e a nova ciência enfrenta resistências: em 1633, a condenação de Galileu pela Inquisição levou Descartes a desistir de publicar seu tratado O Mundo.

É também um século de conflitos. A Europa vive o rescaldo das guerras de religião e, na Inglaterra, uma guerra civil que termina com a execução do rei. Os filósofos desta época procuram fundamentos firmes — para o conhecimento, para a ciência e para a ordem política — em um mundo em que as antigas autoridades já não bastam.

Descartes: recomeçar do zero

Vida

René Descartes (1596–1650) nasceu em La Haye, na França, e estudou com os jesuítas no colégio de La Flèche entre 1606 e 1615. Serviu como soldado e, em Breda, conheceu o matemático Isaac Beeckman, que o estimulou a unir física e matemática. Passou a maior parte da vida adulta na República Holandesa. Em 1649, aceitou o convite da rainha Cristina da Suécia e morreu em Estocolmo em fevereiro de 1650.

Suas obras principais são o Discurso do método (1637), escrito em francês; as Meditações sobre a filosofia primeira (1641), em latim, publicadas com objeções de outros filósofos e suas respostas; os Princípios da filosofia (1644); e As paixões da alma (1649).

A dúvida metódica

Descartes quis encontrar um fundamento absolutamente certo para o conhecimento. Para isso, decidiu duvidar de tudo o que pudesse ser posto em dúvida:

  • os sentidos às vezes nos enganam;
  • não temos um critério seguro para distinguir o sonho da vigília;
  • e é possível supor um Deus enganador ou um gênio maligno que nos faça errar até nas verdades matemáticas.

O cogito

Mesmo que eu seja enganado em tudo, para ser enganado é preciso que eu exista. Enquanto penso, não posso duvidar de que existo. Essa certeza — o chamado cogito, "penso, logo existo" — é o primeiro ponto firme. A partir dele, Descartes estabelece que o que se percebe de modo claro e distinto pelo intelecto é verdadeiro, e apresenta provas da existência de Deus, que garantiria a confiabilidade dessas percepções.

Mente e corpo

Descartes distingue três tipos de substância: Deus, infinito e perfeito; a mente, cuja essência é pensar e que não ocupa espaço; e a matéria, cuja essência é a extensão espacial. Mente e corpo são, portanto, realmente distintos. Isso gerou o célebre problema mente-corpo: a princesa Elisabeth da Boêmia perguntou a Descartes, em cartas, como algo imaterial poderia mover um corpo material — uma objeção que atravessaria toda a filosofia moderna.

A física mecânica

Na filosofia natural, Descartes rejeitou as "formas substanciais" e as "qualidades reais" dos escolásticos. Tudo na natureza, dos planetas ao magnetismo, deveria ser explicado por partículas de matéria em movimento e por leis matemáticas.