Cosmos da Filosofia
Um banco de vestiário de madeira antigo diante de um quadro-negro com marcas de contagem em giz, sob luz quente de fim de tarde, sem ninguém presente

Corinthians — Sócrates, Wladimir e Casagrande · 1981–1984

A Democracia Corinthiana

Jogadores do Corinthians decidiam por voto até o horário do almoço, desafiando o autoritarismo dentro e fora do clube.

LiberdadeJustiça

Sobre a obra

A Democracia Corinthiana nasceu no início dos anos 1980 no Sport Club Corinthians, liderada pelo meia Sócrates e pelo lateral-esquerdo Wladimir, com apoio do presidente do clube, Waldemar Pires, e depois do diretor Adilson Monteiro Alves. O movimento reagia ao modo autoritário como o futebol brasileiro costumava tratar os jogadores, num país ainda sob governo militar.

Na prática, os jogadores discutiam e decidiam por voto — simples levantar de mãos — questões que os afetavam diretamente: horário de almoço, manutenção da concentração antes dos jogos, liberdade para expressar opiniões políticas e para consumir bebida alcoólica em público. O lema do grupo era “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Em 1982, o time estampou “Vote no 15” nas camisas, pedindo votos na primeira eleição com vários partidos desde o golpe de 1964, e venceu os Campeonatos Paulistas de 1982 e 1983. O movimento terminou em 1984: Sócrates dissera que só deixaria o clube se a emenda Dante de Oliveira, pelas eleições diretas, não fosse aprovada; como não foi, transferiu-se para a Fiorentina, da Itália.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores.

Aristóteles e o animal político

Aristóteles definia o ser humano como um animal político, cuja natureza só se realiza plenamente na vida em comum, deliberando com os outros sobre os assuntos que afetam a todos. O vestiário do Corinthians, nesse período, funcionava como uma pequena pólis: jogadores discutindo em voz alta e decidindo por voto questões que, em qualquer outro time, cabiam só à diretoria ou ao técnico. Não era apenas uma bandeira política contra a ditadura — era também uma aposta de que a deliberação coletiva produz decisões melhores do que a obediência a uma única autoridade.