Cosmos da Filosofia
Sócrates, ancião calvo e barbado, ensinando sob um pórtico grego

Filosofia Grega

Sócrates

Não escreveu nada; fez da pergunta um método e da própria morte um argumento.

c. 470 a.C. – 399 a.C.

Vida e obra

Sócrates é, talvez, o caso mais extraordinário da história da filosofia: um homem que nunca escreveu uma linha e, ainda assim, mudou para sempre o modo como pensamos. Tão grande foi sua marca que os filósofos anteriores a ele passaram a ser chamados, em bloco, de pré-socráticos. Tudo o que sabemos dele chegou por outros — e esses outros nem sempre concordam.

A vida

Um ateniense do século de Péricles

Sócrates nasceu por volta de 470 ou 469 a.C., no demo de Alopece, em Atenas. Seu pai, Sofronisco, trabalhava com pedra; sua mãe, Fenarete, tornou-se parteira — detalhe que o próprio Sócrates usaria mais tarde para descrever seu método. Aos dezoito anos, passou pelo exame que o inscrevia como cidadão.

Cresceu na Atenas de Péricles, no auge da democracia, do teatro e das grandes construções da Acrópole — e viveu o suficiente para vê-la mergulhar na longa Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.) contra Esparta, perder a guerra e passar por uma tirania sangrenta.

O homem mais feio de Atenas

As fontes antigas insistem em sua aparência: olhos saltados que olhavam de lado, nariz achatado e arrebitado, lábios grossos. Parecia mais um sátiro do que um homem. Andava descalço, usava a mesma roupa dia e noite, resistia ao frio e ao vinho de modo espantoso.

Escolheu viver na pobreza. Não exerceu um ofício regular e, ao contrário dos sofistas — professores itinerantes que cobravam caro para ensinar retórica —, nunca aceitou dinheiro por suas conversas. Insistia, aliás, que não era professor de ninguém.

Casou-se com Xantipa e teve três filhos: Lâmprocles, Sofronisco e Menéxeno. A fama de Xantipa como esposa difícil vem sobretudo de anedotas posteriores.

O soldado

Como todo cidadão, Sócrates serviu como hoplita, soldado de infantaria pesada, em três campanhas:

  • em Potideia (432–429 a.C.), onde salvou a vida do jovem Alcibíades, ferido em combate;
  • em Délio (424 a.C.), uma derrota ateniense, na qual foi elogiado pela serenidade com que conduziu a retirada;
  • em Anfípolis (422 a.C.), outra derrota.

O cidadão que disse não

Sócrates evitava a vida política, mas duas vezes ela o encontrou — e nas duas ele se recusou a participar de uma injustiça.

  • O julgamento dos generais (406 a.C.). Depois da batalha naval das Arginusas, seis generais foram acusados de não resgatar os náufragos. A Assembleia quis julgá-los todos de uma vez, o que era ilegal. Sócrates, que por sorteio presidia a sessão, foi o único a se opor, apesar da pressão e das ameaças da multidão.
  • Os Trinta (404 a.C.). Após a derrota para Esparta, um grupo oligárquico — os Trinta Tiranos — tomou o poder e executou centenas de pessoas. Mandaram Sócrates, com outros quatro, buscar Leão de Salamina para ser morto. Os outros foram; Sócrates voltou para casa. Só não foi punido porque o regime caiu logo depois.

O oráculo de Delfos

Um amigo de infância, Querefonte, foi ao oráculo de Delfos e perguntou se havia alguém mais sábio que Sócrates. A resposta: ninguém.

Sócrates ficou perplexo, porque não se considerava sábio. Decidiu testar o oráculo: procurou políticos, poetas e artesãos, todos com fama de sábios. Descobriu que eles pensavam saber o que não sabiam. Ele próprio também não sabia — mas sabia que não sabia. Talvez fosse essa a sua pequena vantagem.

A partir daí, entendeu sua vida como uma missão: examinar a si mesmo e aos outros. Na Apologia, ele se compara a um moscardo que pica um cavalo grande e preguiçoso — a cidade — para mantê-lo acordado.

O sinal divino

Sócrates dizia ouvir, desde a infância, uma espécie de voz interior, seu daimónion, que o impedia de fazer certas coisas — nunca o incentivava. Esse "sinal divino" pessoal despertava desconfiança em muitos atenienses.

A caricatura

Em 423 a.C., o comediógrafo Aristófanes levou Sócrates ao palco em As Nuvens. Ali ele aparece dirigindo uma escola ridícula, especulando sobre os céus, desprezando os deuses tradicionais e ensinando a vencer discussões com argumentos desonestos. Os estudiosos discutem se é uma sátira com fundo de verdade ou uma mistura de traços de vários intelectuais da época — mas a imagem pesou contra ele.

Fontes

Por onde conhecê-lo

Não deixou obra escrita. Estas são as fontes principais.

  • Memoráveis, de Xenofonte

Influências

De onde veio, para onde foi