Cosmos da Filosofia
Um cigarro ao lado de um livro fechado sobre uma mesa, sob luz dura

Artigo

Por que sabemos que um hábito é ruim e mesmo assim não conseguimos parar?

Sobre a distância entre saber e fazer — um problema que os gregos chamaram de acrasia.

11 de setembro de 202611 min de leitura

São onze da noite. Você decidiu, de manhã, que hoje dormiria cedo. Sabe que amanhã vai acordar cansado e que a série pode esperar. E aperta o botão do próximo episódio. Ninguém o obrigou, você não foi enganado, não lhe faltou informação. Faltou outra coisa — mas o quê?

A cena é banal, e é justamente por isso que ela incomoda a filosofia há mais de dois mil anos. Os gregos deram a essa experiência um nome, akrasía: literalmente, "falta de domínio". Hoje falamos em fraqueza da vontade ou incontinência. A pergunta é simples de formular e difícil de responder: como é possível saber o que é melhor e fazer o pior?

Sócrates: ninguém erra sabendo

A primeira resposta é a mais desconcertante. No Protágoras, diálogo de Platão, Sócrates nega que a fraqueza da vontade exista.

Ele parte da opinião comum: a maioria acha que o conhecimento é frágil e pode ser arrastado como um escravo pela ira, pelo prazer, pela dor, pelo amor ou pelo medo. É o que dizemos de quem "foi vencido pelo prazer".

Sócrates desmonta a expressão. Os prazeres que chamamos de ruins, argumenta, só são ruins pelo que vem depois — a doença, a pobreza, a dor. Se o bom se mede em prazer e dor, então ser "vencido pelo prazer" é trocar um prazer maior, mais adiante, por um menor, agora. Não houve vitória do desejo sobre o saber. Houve um erro de cálculo.

E por que erramos a conta? As coisas parecem maiores de perto e menores de longe; os sons, mais altos quando próximos. Com o prazer é igual: o que está diante de nós parece enorme, o futuro parece pequeno. A salvação seria uma arte da medida, que corrigisse essa ilusão de perspectiva e pesasse cada coisa no seu tamanho real. Essa arte é um saber; logo, quem cede é vítima da ignorância. Ninguém vai de propósito em direção ao que julga mau.

Os estudiosos discutem se Sócrates aceitava de fato que o bem é o prazer ou se só usava a premissa contra a opinião comum. Mas a conclusão ficou como a tese socrática por excelência, no centro da ideia de que a virtude é conhecimento.

O mérito da tese é lembrar algo que esquecemos: na hora de ceder, o hábito ruim parece bom. O terceiro cigarro, o celular às duas da manhã: no instante em que os escolhemos, apresentam-se como a melhor opção. O defeito é que a tese parece negar o que todo mundo já viveu: a sensação nítida de saber, enquanto faz, que está fazendo a coisa errada.

Aristóteles: saber sem usar o saber

Aristóteles enfrenta o problema no livro VII da Ética a Nicômaco. Seu método é partir das opiniões correntes, notar que a tese de Sócrates contradiz o que se observa e preservar o máximo das duas coisas.

Ter um saber e usá-lo

A chave está numa distinção: uma coisa é possuir um conhecimento; outra, exercê-lo agora. Quem sabe geometria e está dormindo continua sabendo geometria, mas não a usa. O incontinente, diz Aristóteles, está como quem dorme, está louco ou bêbado: a paixão altera o corpo e o juízo, e o conhecimento fica ali, disponível, mas inativo.

Isso desarma a objeção óbvia — "mas eu digo que sei, agora". Quem está sob a paixão pode recitar demonstrações e versos do poeta Empédocles, como um ator recita seu papel ou um aluno repete frases de uma ciência que ainda não entende. Dizer as palavras certas não prova que o saber esteja operando; ele precisa se tornar parte de quem sabe, e isso leva tempo.

O raciocínio prático, nesse caso, não se completa. Há uma regra geral ("não devo comer doces à noite") e uma percepção particular ("isto é um doce"). Mas o desejo tem seu próprio raciocínio ("o doce é gostoso") e é a percepção particular que ele captura. A regra continua lá, correta e inútil.

Aristóteles concede algo a Sócrates: o conhecimento pleno não é arrastado pela paixão; o que é vencido é um saber possuído, mas não exercido. A diferença é que, para ele, a emoção é uma força real, que turva a razão — não só um erro de conta.

Dois modos de ceder

Ele distingue ainda dois tipos de incontinência: a impetuosidade, em que a pessoa nem chega a deliberar e é levada pela emoção antes que o raciocínio apareça; e a fraqueza, em que ela delibera, chega à conclusão certa e não se mantém nela.

O incontinente não é o vicioso

A distinção mais útil do livro VII, porém, é outra. O incontinente (akratês) não é o intemperante (akólastos). O intemperante busca o prazer excessivo por escolha: acha que é isso mesmo que se deve fazer, não sente conflito e não se arrepende. O incontinente sabe que erra, age contra a própria escolha e se arrepende depois.

Aristóteles recorre a comparações. O vício é como uma doença crônica; a incontinência, como crises que vão e voltam. O incontinente é como uma cidade que aprova os decretos certos e não aplica nenhum. Daí uma conclusão consoladora: a incontinência é mais curável que o vício, porque o princípio — o juízo sobre o que é bom — está preservado. E a que nasce do hábito cura-se mais facilmente que a de temperamento, pois é mais fácil mudar um hábito do que a natureza.

Quem sente culpa pelo hábito ruim está, portanto, melhor do que parece: o arrependimento mostra que o juízo ainda funciona.

O hábito forma o caráter

Para entender por que parar é tão difícil, volte-se ao livro II da mesma obra, onde Aristóteles explica como nos tornamos o que somos.

A virtude de caráter não nasce conosco nem vem só do ensino: forma-se pela prática. Uma pedra, que por natureza cai, jamais aprenderia a subir, nem que a lançassem para cima dez mil vezes. Temos por natureza a capacidade de adquirir virtudes, e ela se realiza pelo hábito. Tornamo-nos construtores construindo e tocadores de lira tocando; do mesmo modo, justos praticando atos justos e moderados praticando atos moderados.

O que se forma assim é uma héxis: uma disposição estável, uma segunda natureza. Um sinal de que ela se formou é o prazer e a dor que acompanham a ação. O moderado sente prazer em se abster; quem se abstém a contragosto ainda não é moderado. Por isso a virtude plena não é luta permanente: formado o caráter, agir bem deixa de ser esforço.

Essa teoria corta nos dois sentidos. O mecanismo que forma a virtude forma também o vício. Cada vez que cedemos, não praticamos apenas um ato isolado: treinamos uma disposição. O desejo fica mais rápido, o prazer mais nítido, a resistência mais cara. No livro VII, Aristóteles cita um verso de Eveno, segundo o qual o hábito é uma longa prática que acaba virando natureza.

Há ainda uma lição menos óbvia. Aristóteles distingue o continente, que sente o desejo errado e resiste, do virtuoso, que já não o sente com a mesma força. Vencer a tentação todos os dias pela força é melhor que ceder, mas ainda não é chegar lá: o objetivo não é ganhar a queda de braço para sempre, é mudar o que se deseja.

Os estoicos: a paixão é um juízo apressado

Os estoicos voltaram a Sócrates, mas por outro caminho. Para eles, a mente não tem uma parte irracional que briga com a razão: toda paixão é um juízo da própria razão — uma razão que errou.

Como? Somos atingidos o tempo todo por impressões: isto é delicioso, isto é insuportável, isto não pode esperar. A impressão, sozinha, não nos move; a ação depende do assentimento, do "sim" que damos a ela. A paixão nasce quando assentimos depressa demais a uma impressão falsa, tratando como bem verdadeiro o que não é e como devida uma reação desmedida. Segundo Galeno, Crisipo comparava o apaixonado a um corredor: lançado em velocidade, ele não consegue parar de uma vez, e o impulso ultrapassa a medida.

Sêneca, em Sobre a ira, refinou a análise. Há primeiros movimentos que não dependem de nós: o sobressalto, o rubor, o impulso inicial. A paixão propriamente dita só existe quando a mente aprova o impulso e decide segui-lo. O desejo de acender um cigarro ou de abrir o aplicativo aparece sozinho. O que é nosso é o passo seguinte.

Epicteto tirou daí uma teoria do hábito surpreendentemente concreta. Num capítulo dos Discursos (II, 18), ele observa que toda capacidade se conserva e cresce pelos atos correspondentes: andando, fica-se melhor em andar; correndo, em correr; e quem passa dez dias de cama sente as pernas fracas ao levantar. Com as paixões é igual: cada vez que cedemos à raiva, alimentamos o hábito, como quem joga lenha no fogo. E, como quem teve febre não volta o mesmo se a cura não for completa, a paixão deixa marcas na mente que, se não forem apagadas, pioram a cada nova provocação. Se você quer fazer algo, faça disso um hábito; se não quer, não faça, e acostume-se a outra coisa no lugar.

Schopenhauer: a vontade não obedece ao intelecto

No século XIX, Arthur Schopenhauer deu ao problema uma resposta bem mais sombria. Para ele, o fundo de tudo é a Vontade, impulso cego e sem razão; o intelecto é uma ferramenta a serviço dela. Veja a página sobre a vontade.

Em O mundo como vontade e representação (§55), ele tira as consequências. O caráter de cada um é inalterável: o que alguém quer, no fundo, não se muda por instrução — querer não se aprende, diz numa fórmula latina que atribui a Sêneca. Os motivos só agem sobre a vontade supondo que ela já é como é. O que o conhecimento pode fazer é mostrar à vontade que ela errou os meios, e redirecionar seu esforço. Até o arrependimento, diz Schopenhauer, não vem de uma mudança da vontade, que seria impossível, mas de uma mudança do conhecimento.

Parece uma rendição, mas há uma saída estreita. Schopenhauer fala de um caráter adquirido: o conhecimento mais completo possível da própria individualidade, das forças e fraquezas, obtido pela experiência. Quem se conhece assim para de oscilar entre projetos incompatíveis e conduz a vida de modo metódico. Não se muda a vontade; muda-se o terreno em que ela age.

O que isso muda na prática

Juntas, essas respostas desfazem a ideia de que parar um hábito é questão de "saber" que ele faz mal. Há saberes e saberes: o fumante sabe que cigarro faz mal como o aluno de Aristóteles sabe as frases da ciência, e por isso mais uma campanha ou mais um dado raramente resolvem. O momento decisivo também não é o da tentação, quando o prazer parece grande demais, a paixão desliga o saber e o assentimento vem rápido; a batalha se ganha antes, na preparação e no ambiente. E um hábito não se apaga, se substitui: as disposições são feitas de atos, e não existe vazio neutro — ou se treina o hábito velho, ou se treina outro.

A objeção mais forte: "você não quer parar de verdade"

A objeção mais séria vem da própria tradição: talvez não exista fraqueza nenhuma. Se você continua, é porque, no fundo, prefere continuar; o "saber" que é ruim é só um discurso que você repete sem acreditar. Sócrates diria que você mudou de juízo na hora; no século XX, R. M. Hare sustentou que quem aceita sinceramente que deve fazer algo, e pode fazê-lo, faz; Schopenhauer diria que suas resoluções eram só intenções do intelecto. Falar em "fraqueza" seria autoengano confortável.

A objeção tem força e às vezes acerta: há quem diga que quer parar só porque é o que se espera ouvir. Mas ela não explica tudo. Primeiro, ignora a diferença que Aristóteles viu entre o incontinente e o intemperante: quem realmente prefere o hábito não se arrepende; quem cede e se arrepende logo depois tem um juízo que continua ativo, mesmo sem ter governado a ação. Segundo, como mostrou Richard Holton, há uma diferença entre mudar de ideia e quebrar uma resolução. Uma resolução é uma intenção formada justamente para resistir a uma tentação que já prevíamos. Quando a tentação chega e ela cai, não houve uma nova avaliação serena; houve exatamente aquilo contra o que a resolução foi feita. Terceiro, até Schopenhauer admite que o conhecimento corrige os meios: a vontade não muda, mas o que ela encontra pela frente pode mudar.

O que sobra da objeção é um alerta útil: não confie em declarações, nem nas suas. Confie no que você faz repetidamente — e, se quiser mudar, mude isso.

Um limite: há casos em que o hábito já é dependência química ou compulsão, e a fronteira entre fraqueza e compulsão é discutida pelos próprios filósofos. Nesses casos, a filosofia ajuda a entender, mas não substitui ajuda médica e psicológica.

Práticas, e de onde vêm

  • Decida antes, não durante. Aristóteles observa que quem percebe de antemão o que vem e prepara o raciocínio não é derrotado pela emoção, como quem faz cócegas primeiro não é pego por elas (Ética a Nicômaco, VII, 7). Saiba em que situações você cede — a hora, o lugar, o cansaço — e decida o que fazer nelas com a cabeça fria.
  • Traga o futuro para perto. É a arte da medida do Protágoras. Antes de ceder, veja a consequência no seu tamanho real: não "amanhã vou estar cansado", mas a manhã concreta, a reunião, o humor.
  • Puxe para o lado contrário. No livro II da Ética (cap. 9), Aristóteles aconselha desconfiar do prazer — diante dele não somos juízes imparciais — e forçar-se na direção oposta, como quem endireita uma vara torta vergando-a para o outro lado.
  • Não alimente o hábito, e ponha outro no lugar. Epicteto (Discursos, II, 18): cada vez que cede, você reforça a disposição. Recuse a próxima vez e treine um hábito concorrente. Para a raiva, ele sugere contar os dias: de uma crise por dia, passar a uma a cada dois, três, quatro dias, até completar trinta sem nenhuma — e então oferecer um sacrifício.
  • Peça um minuto à impressão. Também de Epicteto, no mesmo capítulo: diante de uma impressão forte, não se deixe levar pela sua vivacidade. Diga a ela algo como espere um pouco, deixe-me ver quem você é, e examine-a.
  • Separe o impulso do consentimento, e adie. Em Sobre a ira, Sêneca separa o primeiro movimento, que não depende de você, do assentimento, que depende. Adiar a reação é a forma mais simples de impedir que o impulso vire ação.
  • Faça o exame da noite. Sêneca recomenda passar o dia em revista antes de dormir: onde cedi, por quê, o que farei diferente. É assim que a resolução vira conhecimento de si, e não só promessa.
  • Conheça o seu caráter e mude o terreno. Esta é a lição de Schopenhauer: se a vontade não se deixa convencer, organize a vida a partir do que você sabe de si. Não deixe o doce no armário nem o celular na cabeceira. É a ideia do pré-compromisso, discutida hoje pela filosofia da ação e cujo modelo é Ulisses, que se fez amarrar ao mastro para ouvir as sereias sem naufragar.

Nenhuma dessas práticas é um truque. Todas partem do que Sócrates formulou pelo avesso e Aristóteles corrigiu: saber que um hábito é ruim é o começo, não o fim. O saber só governa a ação quando se torna parte de nós — e isso, como tudo o que se aprende de verdade, leva tempo e se faz fazendo.

Fontes consultadas