Cosmos da Filosofia
Uma corda tensionada entre dois pontos fora do quadro, com luz lateral dramática

Ideia

Vontade

Definição

Faculdade de querer. Em Schopenhauer, a realidade última do mundo; em Nietzsche, vontade de potência — o impulso de crescer e afirmar-se.

Querer

A vontade é a faculdade de querer: aquilo em nós que decide, escolhe e se lança à ação. Não se confunde com o simples desejo: posso desejar um doce e, ainda assim, querer não comê-lo. É na vontade que parecem se cruzar o que pensamos, o que sentimos e o que fazemos.

A história do conceito é surpreendente. Começa como uma questão sobre por que às vezes fazemos o que sabemos ser pior; passa pela teologia, pela liberdade e pela moral; e, no século XIX, com Schopenhauer e Nietzsche, torna-se nada menos que a chave para compreender o mundo.

O enigma antigo: é possível agir contra o próprio juízo?

Sócrates: ninguém faz o mal sabendo

Todos já passamos por isso: sabemos que devíamos estudar, parar de fumar ou não comer mais uma sobremesa — e fazemos o contrário. Os gregos chamavam essa experiência de akrasía, "falta de domínio", hoje traduzida como fraqueza da vontade ou incontinência.

Sócrates, no Protágoras de Platão, negou que ela seja possível. Ninguém que saiba ou acredite que há um caminho melhor seguiria pelo pior. Quem parece agir contra o próprio juízo, na verdade, não sabe realmente o que é melhor — ou mudou de ideia no momento da ação. A tese contraria a experiência comum, e por isso deu origem a um debate de mais de dois mil anos.

Aristóteles: saber e não saber ao mesmo tempo

Aristóteles levou a experiência a sério e distinguiu dois tipos de incontinência:

  • a impetuosidade: a pessoa age levada pela emoção, sem chegar a deliberar;
  • a fraqueza: a pessoa delibera, chega à conclusão correta e, ainda assim, não age de acordo com ela.

Mesmo assim, sua explicação acaba próxima da de Sócrates: o incontinente, de certo modo, sabe, mas, de outro, não sabe. A emoção tira da razão sua plena acuidade no momento de agir, como no caso de quem está embriagado ou dormindo e "sabe" coisas que não consegue usar.

Os estoicos: assentir ou não

Para os estoicos, o centro da ação está no assentimento: diante de uma impressão, podemos aceitá-la ou recusá-la. Epicteto chamou de prohaíresis a capacidade de escolha que é inteiramente nossa — a única coisa que realmente depende de nós. Educar a vontade seria aprender a assentir apenas ao que é verdadeiro.

A vontade na tradição cristã

Agostinho: a vontade dividida

É com Agostinho (354–430) que a vontade ganha o lugar central que terá no pensamento ocidental. Ele a entende como um poder de autodeterminação, que nada externo pode forçar. Mas conhece também a experiência da vontade dividida: desejos corrompidos podem tornar a vontade incapaz de querer o bem de modo duradouro. Para Agostinho, a verdadeira liberdade da vontade exigiria a graça divina, que a reorienta para o bem.

Tomás de Aquino e Duns Escoto

  • Tomás de Aquino (1225–1274) definiu a vontade como um desejo racional: ela quer necessariamente o bem, mas delibera livremente sobre os meios de alcançá-lo.
  • João Duns Escoto (c. 1265–1308) deu mais peso à vontade que ao intelecto: nada além da própria vontade seria a causa total de seu ato. E, na vontade divina, viu a origem do que é bom e mau.