
séc. V–XV
Idade Média
A filosofia conversa com a teologia: fé e razão, universais, a existência de Deus, a natureza da alma.
O que se chama "filosofia medieval"
A filosofia medieval não é uma só tradição, mas quatro, que se cruzam o tempo todo: a latina cristã, na Europa ocidental; a grega bizantina; a árabe islâmica; e a judaica, escrita em hebraico e em árabe. Convencionalmente, ela vai de cerca de 500 a 1500, mas essas datas são discutidas.
Alguns especialistas situam o começo no fim do Império Romano do Ocidente; outros, já no século II, com os primeiros filósofos cristãos; outros ainda por volta de 800, quando a corte de Carlos Magno e Bagdá conhecem um renascimento intelectual. Também o fim é incerto: a filosofia universitária latina continuou viva até o século XVII, sobretudo na Península Ibérica, e a lógica árabe durou ainda mais. A escolha dessas fronteiras muda o modo como se conta a história.
O mundo em volta
Da queda de Roma aos mosteiros
Com o fim do Império Romano do Ocidente, no século V, as instituições clássicas de ensino desaparecem na Europa latina. A filosofia sobrevive em mosteiros e, depois, em escolas ligadas às catedrais. No fim do século VIII, a corte de Carlos Magno, com estudiosos como Alcuíno, estimula o estudo das sete artes liberais: gramática, lógica e retórica (o trivium), aritmética, geometria, astronomia e música. Entre os séculos IX e XI, o ensino se concentra no trivium, com grande atenção à análise da linguagem e à lógica transmitida por Boécio.
As universidades
Nos séculos XII e XIII surgem as universidades, com Paris e Oxford como grandes centros. Nas faculdades de artes estudava-se o conhecimento natural, sobretudo por meio de Aristóteles; nas faculdades de teologia, dominadas pelas ordens dos franciscanos e dos dominicanos, discutia-se a verdade revelada de modo intensamente argumentativo, com muitas digressões puramente filosóficas.
Os textos que atravessaram línguas
Um dos fenômenos mais importantes do período é o grande movimento de tradução. Entre os séculos VIII e X, quase toda a obra de Aristóteles foi traduzida do grego para o árabe. Nos séculos XII e XIII, pensadores árabes como Avicena, Averróis, al-Kindi e al-Farabi foram traduzidos para o latim, e a obra completa de Aristóteles chegou à Europa latina. Nos séculos XIII e XIV, o currículo aristotélico passou do árabe ao hebraico. Essas traduções transformaram os programas das universidades no século XIII.
A herança antiga
As quatro tradições medievais herdaram das escolas platônicas tardias, em Atenas e Alexandria, um modo de ler os antigos. Foi decisiva a posição de Porfírio, discípulo de Plotino: Aristóteles, que tratou do mundo sensível, estaria em harmonia com Platão, que tratou da realidade suprassensível. Estudar Aristóteles dentro de uma moldura platônica tornou-se o ponto de partida de todos os ramos da filosofia medieval.
Os pensadores latinos dos primeiros séculos
- Agostinho (354–430) sintetizou o platonismo de Plotino com a teologia cristã. Sua obra é o alicerce da filosofia latina medieval.
- Boécio (476–c. 525) traduziu a lógica de Aristóteles e a introdução de Porfírio para o latim. Sua Consolação da Filosofia, escrita na prisão, foi um dos textos mais lidos e traduzidos da Idade Média.
- João Escoto Eriúgena, ativo no século IX, aprendeu grego, traduziu textos neoplatônicos cristãos e construiu um vasto sistema, no qual chega a afirmar que Deus não está entre as coisas que existem, por estar acima delas.
- Anselmo de Cantuária (1033–1109) formulou o argumento ontológico — a tentativa de provar a existência de Deus apenas a partir do conceito de Deus — e desenvolveu uma teoria da liberdade da vontade de longa influência. Seu lema, a fé que busca compreender, resume uma atitude: usar a razão para iluminar aquilo em que se crê.
O século XII: lógica, linguagem e universais
Pedro Abelardo (1079–1142) foi um dos grandes lógicos do período. Ficou célebre por seu método de conciliar textos de autoridades aparentemente contraditórios por meio da análise dos conceitos, que se tornou prática padrão. Sua esposa, Heloísa (c. 1100–c. 1164), abadessa, radicalizou a ideia de amor desinteressado e aplicou-a à relação entre duas pessoas, e não apenas à relação com Deus.
Problemas centrais

