Cosmos da Filosofia
Anfiteatro universitário alemão vazio, com bancos de madeira e janelas altas

fim do séc. XVIII–início do XIX

Idealismo

Depois de Kant, o idealismo alemão tenta reconstruir a totalidade do real a partir do espírito.

Uma geração depois de Kant

O idealismo alemão é o movimento que começou na década de 1780 e se estendeu até a de 1840. Seus nomes mais conhecidos são Kant, Fichte, Schelling e Hegel. Apesar das diferenças enormes entre eles, compartilham um compromisso com o idealismo: a ideia de que não se pode compreender a realidade sem compreender as estruturas do pensamento, da consciência ou do espírito.

Foram décadas de agitação política — a Revolução Francesa, as guerras napoleônicas, a ocupação de boa parte da Alemanha — e de efervescência cultural, com o nascimento do Romantismo. Pequenas cidades universitárias, sobretudo Jena, tornaram-se por alguns anos o centro da filosofia europeia.

Como tudo começou

A recepção de Kant

A Crítica da razão pura (1781) de Kant foi, de início, mal compreendida: muitos leitores confundiram seu idealismo transcendental com o idealismo de Berkeley, como se Kant afirmasse que o mundo não é real. Kant insistia que não: espaço e tempo são formas que tornam a percepção possível, e os objetos são empiricamente reais, embora as coisas em si mesmas permaneçam incognoscíveis.

A controvérsia do panteísmo

Entre 1785 e 1787, Friedrich Heinrich Jacobi acusou a filosofia demonstrativa — de Spinoza e, por extensão, a de Kant — de subordinar a fé imediata à razão e de conduzir ao niilismo. A disputa colocou em jogo a relação entre razão, fé e liberdade.

Reinhold e Jena

Karl Leonhard Reinhold defendeu Kant nas Cartas sobre a filosofia kantiana (1786–1792), tornando-a uma das filosofias mais influentes e mais discutidas da época. Em 1787, assumiu uma cátedra em Jena, onde ensinou Kant e tentou dar a ela um fundamento em um único princípio. Quando Reinhold partiu, em 1794, seu lugar foi ocupado por Fichte.

O problema herdado

O que movia a geração pós-kantiana era a coisa em si. Kant a declarava incognoscível, mas ao mesmo tempo dizia que ela nos afeta. Como algo que não conhecemos pode ser causa de nossas representações? Os idealistas tentaram resolver o problema — e, ao fazê-lo, transformaram a filosofia de Kant em algo que ele próprio não reconheceria.

Fichte: o Eu que se põe

Vida

Johann Gottlieb Fichte (1762–1814) ficou famoso da noite para o dia quando seu Ensaio de uma crítica de toda revelação (1792), publicado anonimamente, foi tomado por uma obra do próprio Kant. Foi professor em Jena de 1794 a 1799, quando a Controvérsia do Ateísmo o obrigou a renunciar e partir para Berlim. Durante a ocupação napoleônica, pronunciou os Discursos à nação alemã (1807–1808). Em 1810, tornou-se o primeiro reitor eleito da nova Universidade de Berlim.

A Doutrina da Ciência

Fichte radicalizou Kant: para ele, a própria ideia de uma coisa em si é contraditória, pois as coisas só existem como objetos para uma consciência. Em sua Doutrina da Ciência (Wissenschaftslehre, 1794), tudo parte de um ato originário: o Eu põe a si mesmo e, ao fazê-lo, põe a distinção entre o Eu e o não-Eu. Tudo o que ocorre na mente poderia ser explicado a partir da atividade da própria mente.