Cosmos da Filosofia
Nietzsche em um penhasco nos Alpes, sob céu dramático

séc. XIX

Século XIX

Schopenhauer, Nietzsche e a suspeita: a vontade, o sofrimento e o niilismo entram no centro da filosofia.

Depois do sistema

O século XIX começa sob a sombra de Hegel e termina com Nietzsche. No meio, a filosofia muda de tom. Os grandes sistemas que pretendiam explicar a totalidade do real pela razão perdem prestígio, e o que entra em cena é a suspeita: a de que por trás da razão atuam forças que ela não controla — a vontade, os interesses econômicos, a angústia do indivíduo, a história dos valores.

É também o século da industrialização, das revoluções de 1848, do avanço acelerado das ciências naturais e dos métodos históricos. Muitos filósofos do período não foram professores universitários: escreveram fora da academia, às vezes contra ela, e alguns só foram reconhecidos muito depois de morrer.

Os pensadores do século XIX costumam ser lidos como reações ao Idealismo: Schopenhauer contra o otimismo racional, Kierkegaard contra o sistema, Marx contra a filosofia que interpreta sem transformar.

Schopenhauer: o mundo como vontade

Vida

Arthur Schopenhauer (1788–1860) nasceu em Danzig, filho de uma família de comerciantes, e abandonou o comércio aos 19 anos para estudar filosofia em Göttingen e Berlim. Concluiu sua tese em 1813. Em Berlim, marcou suas aulas no mesmo horário das de Hegel — e fracassou. Em 1833, estabeleceu-se em Frankfurt, onde viveu 27 anos, e só alcançou reconhecimento no fim da vida.

Sua obra central é O mundo como vontade e representação, concluída em 1818, publicada em 1819 e ampliada em uma segunda edição em 1844.

Os argumentos

  • O mundo como representação. Seguindo Kant, Schopenhauer afirma que o mundo que experimentamos é representação, moldada pelas formas do nosso conhecimento.
  • O mundo como vontade. Mas a coisa em si, que Kant declarava incognoscível, pode ser identificada: é a Vontade — um impulso cego, sem razão e sem finalidade, que se manifesta em todas as coisas, inclusive em nós.
  • Pessimismo. Como a vontade se divide em inúmeros indivíduos que lutam entre si e nunca se satisfazem, a vida é essencialmente sofrimento.
  • As saídas. Há três modos de escapar, ainda que temporariamente: a contemplação estética — sobretudo a música, que exprimiria diretamente a estrutura da própria vontade —, a compaixão, que reconhece no outro o mesmo sofrimento e é a base da moral, e a negação da vontade de viver, pelo ascetismo.

Schopenhauer foi um dos primeiros filósofos ocidentais a incorporar seriamente o pensamento indiano: os Upanixades e a Bhagavad Gita, que conheceu por volta de 1813–1814, marcaram profundamente sua obra.

Kierkegaard: o indivíduo diante de si mesmo

Vida

Søren Kierkegaard (1813–1855) viveu em Copenhague e morreu aos 42 anos. Publicou boa parte de sua obra sob pseudônimos, cada um encarnando uma visão de vida diferente, para que o leitor se envolvesse de modo indireto, sem receber lições prontas.

Suas obras principais incluem Ou isto, ou aquilo (1843), Temor e tremor (1843), O conceito de angústia (1844), o Pós-escrito conclusivo não científico (1846) e A doença para a morte (1849). Nos últimos anos, atacou em jornais e panfletos a Igreja estatal dinamarquesa.