Cosmos da Filosofia
Uma algema de ferro enferrujada, aberta, caída sobre grama seca ao entardecer, com luz baixa e sombras longas

Tommie Smith e John Carlos · 16 de outubro de 1968

O protesto do pódio na Cidade do México (1968)

No pódio dos 200m, dois velocistas americanos ergueram o punho enluvado durante o hino dos Estados Unidos.

LiberdadeJustiçaMoral

Sobre a obra

Na final dos 200 metros dos Jogos da Cidade do México, em 16 de outubro de 1968, o norte-americano Tommie Smith venceu, seguido pelo australiano Peter Norman e por John Carlos, também americano. No pódio, durante o hino dos Estados Unidos, Smith e Carlos ergueram um punho coberto por luva preta, ficaram descalços com meias pretas e usaram, como Norman, um distintivo do Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos; Smith trazia um lenço preto no pescoço, Carlos, o agasalho aberto.

Segundo Smith, o gesto não era uma saudação do Black Power, mas uma “saudação dos direitos humanos”, ligada à falta de técnicos negros, à discriminação e ao acesso desigual à educação nos Estados Unidos. O presidente do Comitê Olímpico Internacional, Avery Brundage, chamou-o de violação dos princípios olímpicos e ameaçou banir toda a equipe de atletismo americana; Smith e Carlos foram expulsos da Vila Olímpica, mas não precisaram devolver as medalhas, ao contrário do que se costuma dizer.

Os dois sofreram ostracismo e ameaças de morte ao voltar aos Estados Unidos. Peter Norman, criticado na Austrália, ficou fora da equipe de 1972 mesmo tendo cumprido os índices de qualificação; quando morreu, em 2006, Smith e Carlos carregaram seu caixão no funeral. Em 2012, o Parlamento australiano lhe pediu desculpas formalmente.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores.

Epicteto e o que nos pertence

Epicteto ensinava que a única coisa plenamente nossa é o uso que fazemos do próprio julgamento — não a reputação, não a reação alheia, não o castigo que vem depois de um ato. Smith e Carlos sabiam, ao subir ao pódio, que arriscavam a carreira e a segurança; a expulsão veio horas depois, e o ostracismo, por anos. Ainda assim, o gesto foi deles até o fim, fora do alcance de quem os expulsou. É a liberdade estoica no limite: o corpo pode ser punido, mas a ação livre já tinha acontecido e não podia ser desfeita por ninguém.