Cosmos da Filosofia
Um tijolo de barro antigo e rachado apoiado sobre uma muralha de pedra em ruínas, sob a luz baixa do entardecer no deserto.

Mitologia suméria e acádia · c. 2100 a.C. – séc. VII a.C.

A Epopeia de Gilgamesh

Um rei tenta driblar a morte depois de perder o melhor amigo — e aprende que a imortalidade não é para os homens.

MorteExistênciaSofrimento

Sobre a obra

Considerada a mais antiga obra de narrativa longa que se conhece, a Epopeia de Gilgamesh nasce de cinco poemas sumérios sobre o rei de Uruk, alguns talvez de c. 2100 a.C. Esses poemas independentes viraram fonte de uma epopeia acádia unificada; uma versão babilônica antiga já circulava no séc. XVIII a.C.

A versão padrão, compilada por Sin-leqi-unninni entre os séculos XIII e X a.C. e preservada em doze tábuas — cópias de qualidade foram achadas na biblioteca de Assurbanípal, no séc. VII a.C. —, conta como Gilgamesh e Enkidu se tornam amigos inseparáveis, enfrentam o monstro Humbaba e matam o Touro do Céu, atraindo a ira dos deuses, que decretam a morte de Enkidu.

Devastado, Gilgamesh parte em busca de Utnapishtim, único sobrevivente humano de um dilúvio enviado pelos deuses, esperando aprender o segredo da vida eterna. Utnapishtim lhe diz que a morte é a parte reservada aos homens desde a criação. Gilgamesh ainda consegue uma planta que devolve a juventude, mas a perde para uma serpente enquanto se banha, e volta a Uruk de mãos vazias — onde, ao ver as muralhas que mandara construir, as elogia como a obra que vai lhe sobreviver.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores. Contém spoilers.

Epicuro e o medo que não devia existir

Epicuro argumentava que temer a morte é um erro lógico: enquanto existimos, a morte não está presente; quando ela chega, já não existimos para senti-la. Gilgamesh passa boa parte da epopeia apavorado com essa ausência, disposto a atravessar o mundo para escapar dela. Lido à luz de Epicuro, o pavor de Gilgamesh é o retrato exato do sofrimento desnecessário que nasce de temer algo que, por definição, ninguém jamais experimenta.