Cosmos da Filosofia
Uma corda grossa enrolada na amurada vazia de um navio ao amanhecer, névoa do mar pairando sobre a água parada, sem ninguém no convés.

Mitologia grega · séc. VIII a.C.

Ulisses e as sereias (Odisseia)

Amarra-se ao mastro para poder ouvir o canto mortal das sereias sem se atirar ao mar.

ConhecimentoLiberdadeVontade

Sobre a obra

No Canto XII da Odisseia de Homero (séc. VIII a.C.), a feiticeira Circe avisa Ulisses sobre as sereias, cujo canto promete a quem escuta conhecer todas as dores que gregos e troianos sofreram — e é irresistível a ponto de fazer os marinheiros esquecerem tudo, inclusive a própria vida.

Seguindo o conselho de Circe, Ulisses manda a tripulação tapar os ouvidos com cera de abelha e pede para ser amarrado com força ao mastro do navio, com ordens de nunca ser solto, aconteça o que acontecer. Ao ouvir o canto, ele se debate e implora para ser libertado; os companheiros, fiéis à ordem original, o amarram ainda mais apertado, até deixarem as sereias para trás.

Homero não descreve a aparência das sereias nem diz quantas são. A classicista Jane Ellen Harrison observou que, diferente de outras tentações, o canto delas seduz o espírito, não o corpo, e associou a cena a uma espécie de letargia fatal, prenúncio de morte.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores.

Horkheimer e Adorno e a razão como domínio

Em Dialética do Esclarecimento, Horkheimer e Adorno leem a cena como alegoria da razão moderna: os remadores têm os ouvidos tapados e trabalham sem poder sequer ouvir o canto — o prazer lhes é vedado para que produzam. Ulisses, o senhor, pode ouvir, mas só permanece preso, incapaz de se entregar ao que ouve. Para os autores, a razão esclarecida não liberta do sacrifício: apenas reorganiza quem é privado do prazer e quem o adia para sempre.