Cosmos da Filosofia
Um casaco e uma única mala deixados perto de uma porta de entrada, em um corredor de apartamento do século XIX pouco iluminado, a porta entreaberta para a escuridão, sem pessoas visíveis

Henrik Ibsen · 1879

Casa de Bonecas

Uma esposa aparentemente perfeita descobre que precisa, antes de tudo, descobrir quem é, para além dos papéis de filha, esposa e mãe.

LiberdadeExistênciaMoral

Sobre a obra

Casa de Bonecas é um drama em três atos de Henrik Ibsen, estreado em 21 de dezembro de 1879 no Teatro Real de Copenhague. Nora Helmer parece a esposa perfeita da classe média do século XIX, mas esconde um segredo: falsificou a assinatura do pai anos antes para conseguir, sem que o marido soubesse, um empréstimo que pagou a viagem que salvou a vida dele.

Quando o credor, Krogstad, ameaça revelar a falsificação, Nora espera que o marido, Torvald, assuma a culpa por ela como um gesto heroico. Ele faz o oposto: pensa primeiro na própria reputação. Desiludida, Nora percebe que foi tratada como uma boneca, primeiro pelo pai, depois pelo marido, e decide deixar o casamento e os filhos para, pela primeira vez, viver por conta própria.

A peça causou um escândalo que ultrapassou os teatros e ocupou jornais e salões por toda a Europa. Décadas depois, em 1898, Ibsen negou publicamente que tivesse escrito conscientemente em defesa dos direitos das mulheres: disse ter buscado apenas “a descrição da humanidade”. Ainda assim, a obra se tornou uma referência do feminismo e, segundo levantamentos recentes, uma das peças mais encenadas do mundo.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores. Contém spoilers.

Kant e os deveres para consigo mesma

No terceiro ato, quando Torvald lembra a Nora que seus deveres mais sagrados são os de esposa e mãe, ela responde que tem outros deveres tão sagrados quanto esses: os deveres para consigo mesma. Kant reconhecia justamente essa categoria — deveres que temos para com nós mesmos, decorrentes de sermos seres racionais, e não apenas instrumentos para os fins de outra pessoa. Ao dizer que precisa, antes de tudo, descobrir por si mesma o que é certo, Nora reivindica a autonomia que Kant considerava a marca de todo ser racional: pensar com a própria cabeça, em vez de aceitar de fora o que lhe dizem que deve ser.