Cosmos da Filosofia
Três cadeiras vazias e desencontradas dispostas em círculo, viradas umas para as outras, num quarto sem janelas, luz quente de abajur, uma porta fechada ao fundo, sem pessoas visíveis

Jean-Paul Sartre · 1944

Entre Quatro Paredes

Três pessoas recém-mortas são trancadas numa sala e descobrem que o inferno não precisa de fogo — só da presença permanente umas das outras.

ExistênciaVerdadeMoral

Sobre a obra

Entre Quatro Paredes (Huis clos, também traduzida como A Porta Fechada) é uma peça de Jean-Paul Sartre, escrita no fim de 1943 e estreada em 27 de maio de 1944 no Théâtre du Vieux-Colombier, em Paris. Três pessoas recém-mortas — o jornalista Joseph Garcin, a funcionária dos correios Inès Serrano e a socialite Estelle Rigault — são trancadas juntas para sempre numa sala sem espelhos, sem janelas e sem necessidade de dormir.

Aos poucos, cada um revela por que está ali: Garcin foi fuzilado como desertor depois de fugir da guerra, embora se descreva como um pacifista corajoso; Inès seduziu a mulher de um primo e a levou a matar os dois com gás; Estelle teve um caso extraconjugal, afogou o próprio bebê recém-nascido — amarrado a uma pedra — num lago sob a varanda do quarto onde escondera a gravidez, e viu o amante se matar depois. Sem torturador ou fogo, o castigo dos três é serem, para sempre, testemunhas incômodas uns dos outros.

Quando a porta da sala se abre inesperadamente, nenhum dos três consegue sair: Garcin não pode partir sem que Inès o declare corajoso, e ela se recusa. A peça termina com os três decidindo continuar ali, e com Garcin resumindo a situação na frase que se tornaria a mais citada de Sartre: o inferno são os outros.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores. Contém spoilers.

Sartre e o olhar do outro

Em O Ser e o Nada, publicado em 1943, o mesmo ano em que Sartre escreveu a peça, ele descreve como o olhar de outra pessoa nos transforma em objeto: deixamos de ser só sujeitos que veem para sermos também algo visto, medido, julgado. No inferno de Entre Quatro Paredes não há fogo nem torturador: há apenas outras duas consciências, sempre acordadas, sempre observando. Sem pálpebras para fechar e sem espelho que devolva uma imagem escolhida por si mesmo, cada personagem só existe através do olhar alheio — e é exatamente esse olhar, permanente e impossível de evitar, que Garcin resume ao dizer que o inferno são os outros.