Cosmos da Filosofia
Uma cadeira de madeira vazia e derrubada numa charneca varrida pelo vento sob um céu tempestuoso escuro, chuva batendo de lado, sem pessoas visíveis

William Shakespeare · c. 1606

Rei Lear

Um rei idoso divide o reino entre as filhas conforme os elogios que recebe delas, e a decisão o lança à loucura e ao abandono.

NiilismoSofrimentoJustiça

Sobre a obra

Rei Lear é uma tragédia de William Shakespeare, escrita por volta de 1605-1606. O rei idoso decide dividir o reino entre as três filhas de acordo com declarações de amor que elas fazem diante da corte. A caçula, Cordélia, se recusa a exagerar os elogios e é deserdada; o reino fica com as duas irmãs mais velhas, Goneril e Regan.

Uma vez no poder, as duas filhas mais velhas maltratam o pai e o expulsam de casa; Lear enlouquece perambulando por uma tempestade. Em um subenredo paralelo, o conde de Gloucester é enganado pelo filho ilegítimo, Edmundo, e cegado por apoiar Lear; é o outro filho, Edgar, disfarçado de mendigo, quem cuida dele sem se revelar.

A guerra que se segue termina em derrota para Lear e Cordélia, e a peça se encerra com a morte dos dois e de quase todos os demais personagens principais. A crítica discute há décadas se a obra oferece algum consolo — cristão ou moral — para tanto sofrimento, ou se, como argumentou o crítico Harold Bloom, ela está além de qualquer sistema de teologia ou ética.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores. Contém spoilers.

O grotesco segundo Jan Kott

No influente ensaio “King Lear or Endgame”, de 1964, o crítico polonês Jan Kott aproximou a peça do teatro de Samuel Beckett: um mundo sem deuses nem destino que garantam sentido ao sofrimento, em que toda escolha disponível aos personagens já é ruim. No lugar da providência, resta só a história, indiferente às intenções de quem a vive. A leitura de Kott, feita durante a Guerra Fria, ecoa o que Albert Camus chamava de absurdo: um mundo que não responde às perguntas que lhe fazemos, mas continua exigindo que se viva dentro dele.