Cosmos da Filosofia
Um telescópio de latão antigo apoiado no parapeito de pedra de uma janela à noite, apontado para um céu estrelado, luz quente de vela vindo de dentro do cômodo, sem pessoas visíveis

Bertolt Brecht · 1943

A Vida de Galileu

Um astrônomo observa o céu com um telescópio e desafia, com provas, uma visão de mundo protegida pela Igreja e por séculos de autoridade.

VerdadeConhecimentoMoral

Sobre a obra

A Vida de Galileu é uma peça de teatro épico de Bertolt Brecht, escrita em 1938 e estreada em alemão em 1943, no Schauspielhaus de Zurique; Brecht revisou o texto para uma versão americana, encenada em 1947 com Charles Laughton, e voltou a alterá-lo numa terceira versão alemã, de 1955. Acompanha a carreira do astrônomo italiano Galileu Galilei, que aperfeiçoa o telescópio, observa as luas de Júpiter e confirma o modelo heliocêntrico de Copérnico.

Ao publicar suas descobertas em italiano, e não em latim, Galileu as torna acessíveis ao povo comum, o que agrava o conflito com as autoridades da Igreja. Diante da ameaça de tortura pela Inquisição, ele se retrata publicamente e nega o que descobriu. Sob prisão domiciliar até o fim da vida, escreve secretamente um novo tratado científico, que consegue contrabandear para fora da Itália pelas mãos de um ex-aluno.

Brecht reviu profundamente sua visão da peça depois de Hiroshima: se a primeira versão via com otimismo o avanço da ciência, a experiência da bomba atômica o levou a tratar com mais dureza a retratação de Galileu, questionando se cientistas têm o direito de seguir produzindo conhecimento sem se responsabilizar pelo uso que os poderosos fazem dele.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores. Contém spoilers.

Aristóteles contra o telescópio

Quando Galileu convida seus opositores a olhar pelo telescópio e conferir com os próprios olhos as luas de Júpiter, eles recusam, preferindo repetir o que dizem a Escritura e a autoridade de Aristóteles sobre como o céu deveria ser. A cena expõe um risco sempre presente na filosofia: transformar as conclusões de um pensador, por maior que seja, num dogma protegido da própria evidência que deveria testá-las — o oposto do espírito investigativo que moveu o próprio Aristóteles em suas pesquisas sobre a natureza.