Cosmos da Filosofia
Uma cruz de madeira desgastada em pé sobre terra rachada e ressecada de uma paisagem sertaneja, luz dourada de fim de tarde, sem pessoas visíveis

Ariano Suassuna · 1955

Auto da Compadecida

Dois trapaceiros pobres do sertão enfrentam padres, bispos e cangaceiros — e, ao fim, o próprio julgamento depois da morte.

JustiçaMoralMorte

Sobre a obra

Auto da Compadecida é uma peça em três atos do dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, escrita em 1955 e estreada em 1956 no Teatro Santa Isabel, no Recife. Ambientada no sertão nordestino, mistura a tradição dos autos religiosos medievais, a dramaturgia de Gil Vicente e a literatura de cordel para contar as trapaças de João Grilo e Chicó, dois empregados pobres de um padeiro avarento.

As peripécias dos dois — que incluem convencer um padre a fazer, em troca de dinheiro, o enterro católico de um cachorro — se encerram quando o bando do cangaceiro Severino invade a cidade e mata quase todo mundo, inclusive o padre, o bispo e os próprios João Grilo e Chicó.

No além, os personagens são julgados diante de Manuel (Jesus) e da Compadecida (Nossa Senhora), que intercede por cada um deles. Padres e autoridades corruptas vão para o purgatório; os próprios cangaceiros, apresentados pela Compadecida como pessoas corrompidas por um sistema violento mais do que más por natureza, são perdoados; e João Grilo recebe uma graça especial, que o devolve à vida.

Onde está a filosofia

Leituras do Cosmos da Filosofia — aproximações com os filósofos, não a intenção declarada dos criadores. Contém spoilers.

Aristóteles e a equidade que corrige a lei

Aristóteles chamava de epiqueia a correção que a justiça às vezes precisa fazer na própria lei, quando aplicá-la ao pé da letra, num caso concreto, produziria uma injustiça. É esse tipo de correção que a Compadecida exerce diante de Manuel: não anula o julgamento, mas intervém para que a sentença leve em conta as circunstâncias de vida de cada um — a pobreza de João Grilo, a violência que formou os cangaceiros —, em vez de aplicar a mesma régua a todo mundo. A misericórdia da peça, nesse sentido, não se opõe à justiça: é uma forma mais fina dela.